Aqui estão os post anteriormente publicados no Caderno de Notas. Ficam como arquivo, caderno antigo, um pouco para saber o que ele foi e no que está se tornando agora…
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Decidi encerrar o Caderno de Notas, pelo menos tal como ele é atualmente. Foi o meu primeiro blog criado e aprendi muito escrevendo neste espaço.
No entanto penso que este blog está completamente sem identidade, sem propostas, sem humor. A postagem estava muito fraca, mas também não me sentia estimulado a escrever neste espaço, pois realmente não gosto de escrever sobre qualquer coisa. Definitivamente não é o meu perfil… Prefiro me concentrar sobre um único tema, ou um único tipo de assunto, do que ficar escrevendo sobre notícias de outros lugares, ou comentários sobre assuntos variados, apenas pela necessidade de atualizar um blog. Para mim isso é um desperdício de energia, aumentando a dispersão intelectual e comprometendo a produção de outros projetos.
Isso em parte ocorre pela minha incapacidade de lidar com múltiplos assuntos, mas principalmente pela minha total aversão por opiniões, por produzir opinião e por ficar emitindo opiniões… Já disse antes, acho que aqui mesmo ou em blogs de amigos, que eu não gosto de opiniões. De forma que, entre dissertar sobre um assunto, e dizer o que eu acho, prefiro dissertar, ler, pensar, errar, refazer… Mesmo que esse processo demore mais é assim que eu gosto de proceder.
O Caderno de Notas foi muito importante para mim pois ajudou a buscar assuntos sobre o que escrever, ou a encontrar um ‘tom’ de escrita, um “estilo”, e pensar bem sobre o que escrever e sobre o que não abordar.
Eu prefiro agora dedicar meu tempo e meus esforços a meus dois outros projetos: o Afogado em Livros, voltado exclusivamente para resenhas críticas de livros, e o meu novo projeto, O(s) Fim(ns) da História, no qual procuro pensar o lugar do saber histórico no mundo atual, bem como sobre os usos da história, as pesquisas nesse campo e os problemas voltados ao ensino de história. Literatura e História são temas dos quais que realmente eu gosto, e que valem a pena o tempo gasto, lendo e escrevendo.
Ainda não sei o que fazer com o Caderno de Notas, não sei se o apago de vez, ou se espero um pouco e o transformo em outra coisa. Mas vou ter, ao menos, um pouco de tempo para pensar sobre isso.
Aos que leram os post desse espaço, meu muito obrigado.
21/Agosto/2008
A quinta-feira já começou. É meia-noite e nove, e estou aqui me resolvendo se vou ou não descontinuar o Caderno de Notas.
Durante um bom tempo este foi um espaço legal, no qual projetei uma série de pequenos sonhos. O Caderno deveria ser um espaço de pensamento sobre assuntos de meu interesse. No entanto, com o passar do tempo, este projeto ficou cada vez mais sem foco e menos interessante. Primeiro porque não gosto de ficar emitindo opiniões sobre rigorosamente tudo o que leio ou vejo. Segundo, por causa de uma característica minha: me desagrada misturar assuntos, falar sobre um pouco disto e depois daquilo… Preciso de um espaço mais separado e organizado, no qual fale somente sobre literatura, ou somente sobre história etc.
Com o Caderno de notas está acontecendo exatamente o que eu não gostaria, ou seja, uma mistureba de assuntos mal comentados. Por isso, deixo por enquanto em suspenso o que fazer com o blog: acabo com ele ou não? Talvez, durante o sono, venha alguma revelação…
22/Julho/2008
Esse cara é um dos meus heróis…
O Linus Torvalds, criador do núcleo do sistema operacional Linux, concedeu uma excelente entrevista para o Simple Talk. Equilibrado e profissional como de costume, muito lúcido, Linus fala sobre os problemas causados pelas atuais patentes na área de software, Microsoft e sua relação com softwares open source, Ubuntu e o futuro do Linux. Vale a pena mesmo ler essa entrevista e acompanhar o trabalho de Linus.
Clique aqui para ler a entrevista.
18/Julho/2008
Essa sai no gloriosos Jornal da Ciência. Bela reportagem sobre a falta de interesse dos jovens em carreiras científicas na América do Sul.
Reproduzo abaixo a notícia na íntegra. Vale a pena ser lida.
3/Julho/2008
Dr. Zappa faz um diagnóstico interessantíssimo da cultura yuppie nos anos Reagan…
Maravilhoso!
3/Julho/2008
Não, não é sobre o novo disco do Guns´n´Roses (aliás, existe?)
Notícia do New York Times (Via O Globo)
Quando é que a eleição ocorre mesmo?
29/Maio/2008
Uma dica de blog para os meus 1 e 1/2 leitores. Direto de Portugal o pessoal do ANTROPO-REFLEXÕES está desenvolvendo um trabalho fantástico de discussão de temas ligados à Antropologia.
Destaque especial para uma seção imperdível de downloads de livros e artigos de antropologia, que inclui Lévi-Straus, Geertz, Ernst Cassirer, Desmond Morris, Gilbert Kushner e Marshall Sallins.
Atenção também para as resenhas sobre Adam Smith, bem como os comentários aos genocídios indígenas e posts sobre metodologia em antropologia.
Prestigiem!
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13/Maio/2008
O Globo de ontem publicou matéria da Reuters/Brasil On line sobre o falecimento de Irena Sendler, assistente social que ajudou a salvar milhares de crianças dos nazistas, na Segunda Guerra Mundial.
Irena Sendler recusava o rótulo de heroína. De fato, essa palavra foi pouco para defini-la
Ao retirar 2.500 crianças escondidas do Gheto de Varsóvia, muitas vezes em caixas ou malas, a coloca em um outro patamar de grandeza humana. Ela foi uma das milhares de pessoas que, em meio aos horrores nazistas, arriscou a vida para garantir o futuro de milhares de pessoas e famílias. Seu ato ilustra uma daquelas condições mais especiais da história: a do indivíduo que, com gestos pequenos, mas magníficos, consegue mudar o curso de milhares de vidas.
Irena Sendler teve seu mérito reconhecido. Durante acontecimentos terríveis, como as guerras mundiais, milhares de outros anônimos agiram como Sendler, mas não puderam ter seus atos registrados. Então, por esta pequena homenagem a Irena Sendler, que se registre, também, um minuto de silêncio e um louvor à memória de todos aqueles pequenos redentores da história que agiram anonimamente, de maneira sublime.
Para outras matérias sobre Irena Sendler, clique aqui.
Para a página do Projeto Irena Sendler, clique aqui.
7/Maio/2008
Para quem curte tecnologia (como eu) e é completamente disperso, meio indisciplinado e atarefado – como eu… – o iGoogle se constituiu em uma boa maneira de me organizar e unificar textos, apresentações e outras necessidades de trabalho do dia a dia.
Resolvi, há alguns meses, unificar minhas atividades de escrita de textos, cópias de arquivos, preparação de apresentações, emails, tudo no Google. Não se trata somente de espaço em gigabytes, mas também de comodidade. No entanto, ainda faltava funcionalidade ao gerenciamento dessas informações todas.
Com o iGoogle, penso que o problema está resolvido. Do Orkut ao YouTube, de postagens no WordPress à acesso de documentos, tudo fica bem mais fácil com o sistema de “gadgets” adotado pelo site.
Duas coisas que eu particularmente adorei foi a possibilidade de postagem de post para WordPress (essa mensagem e o “teste” anteriores foram compostos assim), além de escutar música pelo Last FM. E o melhor: tudo em Linux. Aqui em casa uso o Firefox e o Ubuntu. Como todo o iGoogle funciona via internet, uso o ambiente de trabalho virtual muito bem.
Para quem está precisando de organização e agilidade para gerenciar informações, o iGoogle é uma boa pedida.
20/Fevereiro/2008
Fidel Castro renunciou ontem. Não gosto dele, mas não vou exultar, também. Me pergunto, apenas, pelo destino da ilha. Não é só o destino da revolução, mas de algo bem maior: seu povo, seu trabalho, a formação social cubana, o que a população cubana conseguiu, com Fidel, ou apesar de Fidel.
Antes de meu 1 1/5 leitor criticar, entrar em êxtase ou entrar em luto, seria interessante dar uma pequena olhada no especial preparado pelo UOL-Folha de São Paulo. Atenção aos números da CIA (aquela…) favoráveis à Cuba. Depois opine(m) como quiser(em).
Filed under História Contemporânea
Enquanto vou preparando uns textos aqui, vamos remexendo o Youtube…
Motorhead – God Save the Queen
Bom, se o post passado foi bem mais delicado, esse aqui é para chutar o pau da barraca… Motorhead homenageando o punk… O cover ficou ótimo – aliás, dá pra dizer qual ficou melhor?
5/Fevereiro/2008
Aproveitando que eu tive que trocar de vídeo, já que o Youtube retirou do ar a música “Cecilia”,
Simon & Garfunkel – Old Friends
Para todos os amigos, velhos e novos, frequentados ultimamente ou não…
27/Janeiro/2008
Para os 1 1/2 leitores que freqüentam este modesto espaço, resolvi poupá-lo(s) da mesmice sonora, e troquei a lista de músicas. Tudo bem que Three Dog Night é ótimo, mas eu mesmo não aguento mais ouvir “Shambala” toda vez que acesso o blog.
Idem para o visual. Espero que aprovem…
22/Janeiro/2008
A Folha de São Paulo prestou um imenso favor a todos aqueles que não toleram o obscurantismo religioso que grassa o país, principalmente pela televisão, mas que, lamentavelmente, chegou exatamente onde não podia chegar…
Certo, tolerância religiosa é legal, mas existe um limite para tudo. Nos últimos anos, grupos religiosos, principalmente católicos e neo-pentecostais vêm fazendo campanha em prol do criacionismo, atacando outras religiões e, principalmente, procurando limitar pesquisas científicas. Se quiserem acreditar que Deus literalmente criou o mundo segundo o Genesis, ok, direito deles. Mas não têm o menor direito de que essa visão seja ensinada nas escolas públicas, nem que seja universalizada pelo sistema de ensino, que é laico, antes de qualquer coisa.
Reproduzo abaixo o editorial, que chegou a este blog via Jornal da Ciência (aliás, viva a SBPC!!!).
PS – lamentável, em todos os aspectos, a postura da ministra Marina Silva.
20/Janeiro/2008
Pedimos aos leitores deste blog – sei que não são muitos… – que ajudem, ao menos, divulgando a situação de expoliação e destruição que esse crime causa à memória nacional, e que divulguem a iniciativa do IPHAN.
14/Janeiro/2008
O portal do Serviço Social do Comércio de São Paulo – SESC-SP – está com uma seção maravilhosa: trata-se da transcrição das conferências patrocinadas pela instituição.
Apenas para citar alguns dos autores cujas conferências foram transcritas: Edgar Morin, Pierre Lévy, Moacir Scliar, Paulo Sérgio Pinheiro, Nicolau Sevcenko, Jacques Rancière, Durval Muniz de Albuquerque, Zuza Homem de Melo…
PS – Downloads de graça…
14/Janeiro/2008
É isso mesmo – subsídio ao desmatamento na Amazônia!
E tome irracionalidade econômica….
14/Janeiro/2008
O pessoal do blog Letras Despidas visitou este humilde espaçozinho na blogosfera. Publico aqui a mensagem que mandei em agradecimento ao Letras Despidas.
“Adriano:
Agradeço sua visita. Conheço o “Letras despidas” e gosto bastante da proposta do Blog. Vou estabelecer um link com vocês. Continuem escrevendo.
Sobre o Reinaldo Azevedo – pessoalmente não tenho nada contra ele, nem posso ter: criticar a pessoa de um autor é anti-ético. O que penso é que autores como ele, ou como Olavo de Carvalho (que é um homem cultíssimo, com textos muito bons sobre literatura em seu site, e cujos textos, em geral, seguem as regras de um debate acadêmico e intelectual corretos) cometem um erro muito sério, bastante comum à esquerda também: eles deixam suas visões de mundo se sobreporem a uma maneira de conceber a história. A esquerda “heavy-metal” (PSTU, Causa Operária, PC do B, algumas alas do PT)ve em tudo imperialismo ianque, luta de classes como motor da história, e cria simplificações grosseiras sobre a história brasileira – tudo é golpe, tudo são os explorados contra os exploradores… De fato, muitas das críticas de Reinaldo Azevedo e outros à esquerda tem fundamento, principalmente na quantidade de besteiras politicamente corretas que são ditas sobre racismo, cotas etc, etc, só alimentam as críticas de direita.
O que é duro é que, à direita, a coisa não é nada melhor: no lugar da luta de classes, Olavo de Carvalho e Reinaldo Azevedo vêm “a força da civilização”, as Luzes do Império Britânico, a conspiração comunista universal e internacional (no caso do Olavo). E aí estamos de volta à filosofia da história, às explicações transcendentes da história, tudo aquilo que a historiografia desde os Annales combatem: história sem pesquisa, história não-científica, história sem fontes, história produzida por um sentido transcendente (e não imanente) dos acontecimentos.
Sou historiador, e particularmente penso que a pesquisa histórica não serve para confirmar o que achamos sobre o real… se uma pesquisa histórica mostra o que eu quero que ela mostre, se já sei os resultados de antemão, para que pesquisar e pensar? É o que eu sinto MUITA FALTA nos debates tanto entre esquerda e direita, e dentro da esquerda: produção de pensamento, a sério, e uma discussão não ressentida, equilibrada. A esquerda precisa fazer uma auto-crítica de seu passado pós 1968 “festivo”, de seu populismo? Sem dúvida. Mas não vejo autores conservadores construindo algo melhor. Olavo de Carvalho e Reinaldo Azevedo, por exemplo, estão muito, mas muito aquém de um Luc Ferry.
É o que eu penso.
Abraço e parabéns a todos vocês.”
10/Janeiro/2008
O que mais irrita nos textos de Reinaldo Azevedo não é o fato de que ele é “conservador”, “neo-liberal”, etc. Ponho esses termos entre aspas porque acusá-lo dessas coisas é tão tolo e autoritário quanto dizer que um autor é ruim por ser “comunista”, “esquerdista”, etc.
O problema com Reinaldo Azevedo é que ele é tão dogmático quanto aqueles que ele critica. Suas posições políticas parecem o supra-sumo da modernidade, sofisticadas e completamente
up-to-date, mas não passam de uma ladainha monótona de alguém que leu obras de Ludwig Von Mises, fichou, esqueceu todo o debate econômico, pinçou umas frases e transformou em ideologia. Se foi isso – e se é que RA leu Von Mises, Hayek, Friedman, fez com eles o mesmo que tantos outros autores fizeram com Marx: propaganda ruim, filosofia da história, dogmatismo.
Reinaldo Azevedo vê a história como uma espécie de luta entre um projeto “civilizatório” liberal, capitalista, universal, democrático, que se defronta com forças “bárbaras”, “locais”, obscuras, fundamentalistas, comunistas… O Império Britânico como ideal civilizatório, as “luzes inglesas” como antídoto a séculos de barbárie tribal… Sua forma de ver a história como um embate entre “forças” de progresso e de atraso, no fim, é uma construção ideal, um Transcendente histórico, que não é tão diferente de frases como “a luta de classes é o motor da história”, ou achar que toda a história humana se reduz a texto e linguagem. A forma com que a história e o desenrolar dos acontecimentos históricos é representada, curiosamente, pouco tem de histórico, e muito de ideológico. A que ponto chegamos: Reinaldo Azevedo – na prática alguém que lê a história como um percurso a ser seguido para a realização de um Ideal Civilizatório
mezzo liberal
mezzo aristocrático fica brigando com comunistas de plantão, petistas, etc. Ele e a “petralha” que ele tanto reclama, afinal das contas, não são tão diferentes assim: ambos acreditam em um fim da história. Para os comunistas, ele ainda não veio. Para RA, ele já chegou.
Os leitores que não se satisfazem nem com alguém que se arroga ser um continuador da tradição jornalística de Paulo Francis, mas que, creio, não demonstra uma capacidade aguçada de leitura de obras de esquerda e de direita, nem o respeito que ele demonstrava com seus oponente, como Francis faz com Eric Hobsbawn, por exemplo -
, mas que não suportam mais a idiotice e o militantismo esquerdoso (”se é PT é bom”, entre outros axiomas) têm que agüentar esse FEBEAPÁ versão século XXI.PS – por mais que o RA diga que é “apedrejado” pela “petralhada” em seu
blog (e isso é vitimização barata, porque alguém que tem total liberdade para produzir seus artigos na
Veja, como ele possui, não é vitima, mas sim um dos jornalistas com maior visibilidade e poder de influência no país), e por mais que não se deva ofender um interlocutor, seu
post de nome “
Cadê o “homem branco” democrata?”, de 07/01, é péssimo, tolo mesmo. De novo, não por pedir um “homem branco democrata” ou por se declarar fã de Margareth Tatcher, (com certeza RA não é um racista) mas porque sua afirmação de que “Não existe renovação virtuosa se há a desconfiança de que ninguém vela pela tradição” – no caso, a falta de alguém no Partido Democrata que encarne a “tradição política e democrática dos mais nobres ideais norte-americanos” – é uma falácia, tem tanto sentido quanto frases do tipo “faça sexo somente com a pessoa que você ama”, bla-bla-bla.
As “tradições” da revolução americana já não são lá as mesmas pelo menos desde a virado do século XIX para o XX. Mark Twain (que estava muito longe de ser um homem de esquerda) percebeu isso muito bem em suas críticas ao imperialismo exercido pela Alemanha, Bélgica e Inglaterra, e constatou em primeira hora a tendência ao imperialismo que os EUA seguiam. Desde a primeira década do século XX já existe a percepção de que “as tradições americanas” já não eram tão “tradicionais” assim. O mundo que surge após as guerras mundiais só vem acentuar essa “quebra de tradições” – ou a interferência americana dando uma “ajudinha” às ditaduras latino-americanas contra seus “terríveis inimigos comunistas” (e, no Brasil, desculpa aí, mas há um superdimensionamento da importância de movimentos como a Guerrilha do Araguaia, à esquerda (que os vê como heróis) e à direita (que os vê como terroristas), mas em ambos os casos configurando um delírio evidente…) foi mais um momento do embate glorioso entre “Luzes” e “Escuridão”?
Inscrever toda a história nesse embate entre “civilizados” e “bárbaros” seria fácil, não fosse o tempo dessa história não o do Progresso, mas o futuro do pretérito: o mundo seria melhor se as Luzes da Civilização vencessem a barbárie do atraso… Seria tudo tão fácil, não fosse simplesmente mentirosa essa leitura da história. Tudo seria muito mais prazeroso, se RA e seus opositores não fossem tão ruins.
PS 2: mesmo o RA sendo esse restaurador enrustido, devo dizer que “Não concordo com nada do que dizes, mas defenderei até a morte o teu direito de dizê-lo” – por mais que isso me desagrade.
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3/Janeiro/2008
Não que eu goste de iniciar o ano com notícias ruins mas não pude ignorar a
matéria do Gilles Lapouge no Estado de São Paulo. O texto chegou até mim por via do
Jornal da Ciência, da
SBPC – aliás, vale a pena assinar a edição eletrônica do jornal, gratuita e ótima.
Infelizmente a notícia não é lá muito boa: trata-se da perspectiva do Talebã ter acesso a armas nucleares. Leiam e tirem suas conclusões…
2/Janeiro/2008
Depois de uns dias de folga na praia do Paraíso, ilha do Mosqueiro, o de notas retorna às atividades desejando a todos os seus amigos um maravilhoso ano de 2008!!!
28/Dezembro/2007
E o bicho está pegando no
Na Prática a Teoria é Outra: depois de uma tremenda resenha publicada sobre o livro “Deus, um delírio”, de Richard Dawkins, os
post sobre o assunto vêm se multiplicando no blog amigo.
O debate está ótimo, e o ponto mais delicado da discussão foi posto com enorme perspicácia na parte 6 da resenha: são as implicações políticas do debate que importam, principalmente nos EUA, que está povoado de políticos fundamentalistas religiosos.
Aqui segue minha opinião sobre o debate, publicado originalmente como comentário aos posts do NPTO:
O que é estranho é que, quatro séculos depois de Giordano Bruno e de Spinoza, ainda estamos patinando em um lodaçal metafísico. Há um excelente debate no campo da metafísica que opõe um Deus Transcendente (uma entidade dotada de uma Vontade moral e uma consciência que tudo comanda – e que as religiões mantém uma guerra tanto no campo da exegese quanto no campo das armas para ver quem tem a supremacia sobre a Interpretação da Vontade de Deus.Pessoalmente me agrada, muito, a concepção de Deus de Spinoza: um Deus absolutamente imanente, que é a própria natureza e seus processos. Um Deus “neutro”, que só conhece mudanças, transformações, e cujas criaturas são dotadas da mesma substência. Um Deus que não é moral, que não está preocupado em eleger uma espécie como ponto final da evolução. Conhecer a natureza e seu funcionamento seria, de alguma forma, estar mais perto da divindade, não para controlar essa natureza, mas para compreendermos que fazemos parte de uma totalidade, de um Uno cujas formas múltiplas possuem o mesmo sentido.
Assim, a ignorância está na disputa pela primazia da palavra de Deus, bem como no erro que é conceber um Deus transcendente e com “vontade”. Como dizia Spinoza, “A Vontade de Deus é o Asilo da Ignorância” (Ética demonstrada à maneira dos Geômetras).
Há uma belíssima retomada dos princípios éticos e mesmo do Deus de Spinoza, mas de forma laicizada, a partir do trabalho filosófico de Gilles Deleuze. É uma boa saída: uma ética da imanência absoluta, que abandona a idéia de um princípio metafísico transcedente e todas as suas exegeses e personagens – a começar por “Deus”.
Feliz natal a todos e parabéns pelo nível das discussões.
18/Dezembro/2007
O Caderno de Notas vai atualizar, periodicamente, sua lista de blogs, englobando principalmente bibliotecas virtuais, institutos de pesquisa, bases de dados. A intenção é “encurtar” o caminho para colegas e leitores que desejem acessar publicações on line, além de sistematizar minhas pesquisas.
13/Dezembro/2007
E o governo perdeu ontem, no Senado, a prorrogação da CPMF. As repercussões são diversas. Lúcia Hipólito opinou que a derrota foi mais política do que econômica, uma vez que, segundo ela, o governo já possui recursos para cobrir os R$ 40 bilhões que deixarão de entrar no caixa federal.
Que seja. Mas se estívessemos trabalhando apenas com uma contabilidade “pura” – saem X bilhões mas entrarão mais Y bilhões equilibrando as contas, ok. Mas o problema está longe se ser puramente contábil.
A BBC-Brasil, citando o Financial Times, destacou que a derrota do governo na prorrogação da CPMF retardará a avaliação que as agências internacionais farão do risco de investimentos no Brasil, em especial do famoso “Risco Brasil”. Em um momento no qual o tempo de estabilidade econômica internacional parece estar acabando, por conta da crise do setor imobiliário nos EUA, uma queda da confiança na economia brasileira seria um péssimo negócio.
O Na prática… fez uma crítica pesadíssima ao oportunismo político (sim, foi oportunismo) dos Tucanos e dos Democratas (?!?). De fato, o que eles fizeram foi jogo sujo, do ponto e vista político. Mas eu me pergunto se eles próprios irão com essa situação até o fim, pois em uma eventual possibilidade de conquista da presidência, os DEM e os Tucanos sabem que precisarão de mais recursos. Então eu ainda espero para ver o que a oposição negociará com o governo.
Resta saber se a médio prazo a CPMF embutida no preço dos produtos deixará se ser repassada ao consumidor (eu não boto fé…). Segundo o Infomoney os brasileiros gastam R$ 40 bilhões com o pagamento de CPMF, mas somente R$ 25 bilhões com compras de gêneros alimentícios básicos. Sem dúvida é uma transfusão de dinheiro enorme para o Estado. Mas esses R$40 bilhões serão reinjetados, necessariamente, no comércio? Será uma inversão produtiva de recursos?
Os economistas, por favor, ajudem!
5/Dezembro/2007
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E o Corinthians aprendeu da pior maneira possível que o jogo financeiro da globalização não é para qualquer um… O que parecia um bom negócio se revelou uma robalheira danada, prejuízo milionário para o clube, crise, elenco sem grandes jogadores e, por fim, rebaixamento. Mas foi merecido… Quem mandou confiar na Máfia Russa?!?!!? |
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| E enquanto o Timão segue ladeira abaixo, pronto para “tornar-se o que se é” – um inexorável diminutivo, eu cá vou gozando as alegrias do meu glorioso São Paulo Futebol Clube, cada vez mais campeão (legítimo) de, bem, quase tudo. |
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Já no futebol paraense, bem… Resta fazer uma via sacra pelas Igrejas de Santo Alexandre, Ordem Terceira do Carmo, Sé e Nazaré, com direito à mortificação no Círio, para ver se o Payssandú faz alguma coisa!
4/Dezembro/2007
E Hugo Chávez perdeu hoje o referendo que lhe permitiria governar indefinidademente a Venezuela.
Perfeito. Agora veremos realmente o que está em jogo na Venezuela. Veremos como Chávez se comportará, se sua tão propalada “democracia Bolivariana” é apenas uma fachada totalmente populista ou se, ao contrário, ele será capaz de governar com uma oposição interna, não oriunda apenas da direita venezuelana, mas de suas próprias bases.
A Venezuela é um país extremamente dividido. A distância entre ricos e pobres é enorme, e o ressentimento acumulado pela desigualdade social, ao longo dos últimos vinte anos, explica, em boa parte, a existência de um Chávez. Por um lado, ele foi possível porque teve habilidade suficiente para capitalizar o descontentamento da população de um país que exporta petróleo, tem os EUA como grande parceiro comercial e, no entanto, não consegue simplesmente minimizar suas desigualdades.
Bush, com certeza, está comemorando a derrota de Chávez. Outros colegas da esquerda devem estar furiosos com a derrota. Mas, para os acontecimentos na América Latina, e para os governos de esquerda em geral, o principal não é a relação entre Venezuela & EUA, mas a relação interna do governo bolivariano com suas próprias bases. Chávez, ao dar poder aos “conselhos bolivarianos”, ao oferecer condições para que camadas inteiras da população se manifestassem politicamente, imaginou um “poder perpétuo”, um apoio irrestrito de suas bases. Isso não aconteceu.
A “democracia bolivariana” se voltou contra Chávez. O poder popular é mais democrático que o próprio Chávez poderia supor. O quanto ele pode suportar de sua própria “democracia bolivariana”?
3/Dezembro/2007
Para todos aqueles que gostam, apreciam, ou apenas têm curiosidade em tomar contato com o pensamento de Gilles Deleuze, deixo aqui um link para o Abecedário de Gilles Deleuze.
A entrevista durou sete horas, e foi veiculada pela televisão francesa. No Brasil, ela foi originalmente exibida pelo canal Futura de televisão, em 2001.
A íntegra da transcrição da entrevista está disponível no sito O Estrangeiro, comunidade virtual dedicada ao estudo da filosofia da diferença.
Há momentos particularmente magníficos na entrevista. Ao relembrar sua infância, Deleuze menciona a importância que Pierre Halbwachs (filho do sociólogo e membro fundador da revista Annales, Maurice Halbwachs) teve em sua vida, além do ódio que a direita francesa devotava à Léon Blum, primeiro ministro socialista francês que introduziu as reformas trabalhistas na França em 1936 – em especial as férias remuneradas e a jornada de 40 horas de trabalho. Deleuze relembra que a reação da burguesia francesa era em uma mistura raivosa de anti-semitismo e ódio de classe. Transcrevo aqui a passagem que considero, pessoalmente, a mais bela, aquela em que Deleuze percebe o que foi aquela conquista operária: não foram somente as horas, mas tudo o que aqueles operários finalmente poderiam viver pela primeira vez – conquistas de vida que, às vezes, nem mesmo a esquerda percebe. A passagem é realmente bela – e eu não esperaria outra coisa…
Ficamos em uma pensão; nossa mãe tinha nos deixado com uma senhora que era a dona desta pensão. E eu fui à escola durante um ano em Deauville, em um hotel que foi transformado em liceu. E os alemães estavam chegando. Não, estou confundindo tudo. Isso foi no início da guerra. De qualquer forma, eu estava em Deauville. Quando, há pouco, falei das férias remuneradas, eu me lembro que a chegada das férias remuneradas à praia de Deauville foi uma coisa! Para um cineasta, isso poderia virar uma obra-prima, pois era prodigioso ver aquela gente vendo o mar pela primeira vez! Eu vi uma pessoa vendo o mar pela primeira vez na vida e é esplêndido! Era uma menina da região de Limousin que estava conosco e que viu o mar pela primeira vez. Se existe alguma coisa inimaginável quando nunca se o viu, esta coisa é o mar. A gente pode imaginar que seja grandioso, infinito, mas tudo isso perde a força quando se vê o mar. Aquela menina ficou umas quatro ou cinco horas diante do mar, completamente abobalhada, e não se cansava de ver um espetáculo tão sublime, tão grandioso! Então, na praia de Deauville, que sempre tinha sido exclusiva dos burgueses, como se fosse propriedade deles, de repente, chega o povo das férias remuneradas… Pessoas que nunca tinham visto o mar. E foi fantástico. Se o ódio entre as classes tem algum sentido são palavras como as que dizia a minha mãe — que, no entanto, era uma mulher fabulosa —, sobre a impossibilidade de se freqüentar uma praia em que havia gente como aquela. Foi muito duro. Acho que eles, os burgueses, nunca esqueceram. Maio de 68 não foi nada perto disso.
29/Novembro/2007
Esse post foi originalmente publicado na primeira versão do Caderno de Notas. É o primeiro da série de posts que estou republicando. Ao final, também acrescentei as observações do Celso, do Na prática a teoria é outra.
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Um post de meu caro amigo Celso Rocha apresentou um problema muito interessante: a relação (ou a não-relação) entre os pensadores pós-estruturalistas, a economia e política.
Não pude ler o artigo do The Economist. Faltou-me um cartão de crédito internacional no momento… De qualquer forma, está aí algo realmente intreigante: gente como Foucault, Derrida, mesmo Deleuze e Guattari… o que eles têm a dizer sobre economia? Me parece que inexiste algo que poderíamos chamar de um pensamento pós-estruturalista sobre a economia. E essa inexistência – ou, creio eu, esse silêncio sobre a economia -, o que poderia nos revelar sobre o próprio pós-estruturalismo e suas posições políticas?
Creio que isto indica um limite muito claro do pensamento pós-estruturalista: sua incapacidade – ou sua afasia – no momento de lidar com “macro-estruturas” – o Estado, as relações políticas e jurídicas que fundamental o Estado, a injunção entre Estado e grandes conglomerados empresariais.
Lembro-me de um comentário de Bruno Latour sobre Gilles Deleuze, em 1995, durante o seminário internacional de filosofia “Gilles Deleuze”. Latour, naquela ocasião, noqou que a análise que Deleuze fazia da condição das sociedades capitalistas contemporâneas era brilhante, mas que suas posições políticas eram completamente clássicas. Em outras palavras, seu “socialismo” era, no máximo, alinhado com a defesa das minorias, das diferenças culturais e subjetivas mas, em geral, Deleuze expressava as mesmas posições de um marxista heterodoxo. Se Deleuze fazia a ligação entre produção capitalista, produção de subjetividade, reversão dos simulacros na metafísica platônica, era estranho o fato de que Deleuze nunca esboçara uma análise parecida da política e mesmo da produção de subjetividade “à esquerda”.
Uma hipótese que arrisco para explicar esse silêncio é a seguinte: essa ausência de um pensamento pós-estruturalista sobre a economia indica, de um lado, o próprio limite das posições políticas de pensadores como Derrida ou Foucault, por exemplo. Por outro lado, até que ponto esse silêncio também não é revelador dos limites das próprias ferramentas analíticas acerca do capitalismo, capazes de dar conta do cenário econômico atual, em sua abrangência e imanência. Dois limites, portanto: dos próprios filósofos e de suas posições políticas, mas também do pensamento, por outro.
Nesse primeiro post eu começarei pelo segundo aspecto. Lembro-me de uma frase de Gilles Deleuze que diz:
Só se pode pensar o Estado em relação ao que está para além dele, o mercado mundial úinico, e ao que está aquém dele, as minorias, os devires, as “pessoas”. É o dinheiro que reina mais além, é ele que comunica, e o que nos falta atualmente não com certeza uma crítica do marxismo, é uma teoria moderna do dinheiro que esteja tão boa quanto a de Marx e a prolongue (os banqueiros estariam mais aptos que os economistas para fornecer elementos para isso, ainda que o economista Bernard Schimiditt tenha avançado nesse domínio). E mais aquém estão os devires que escapam ao controle, as minorias não param de ressuscitar e resistir. Os devires não são, de modo algum, o mesmo que história: ainda que estrutural, a história pensa com maior freqüência em termos de passado, presente, futuro. Dizem-nos que as revoluções acabam mal, ou que seu futuro engendra monstros: é uma velha idéia, não foi preciso esperar Stálin para saber o que já era verdade em Napoleão, em Cromwell. Quando se diz que as revoluções têm um mal futuro, nada se disse ainda sobre o futuro revolucionário das pessoas. (…) (1)
De todos os chamados “pós-estruturalistas”, tomo aqui as palavras de Deleuze porque este me parece ser o único filósofo que se preocupou seriamente com o problema das oposições existentes entre o conhecimento científico e de suas relações com a ontologia de uma forma satisfatória. Embora não seja o momento de tratar dessa relação, aqui, creio que no pensamento de Deleuze podemos ter uma alternativa tanto para uma percepção puramente cientificista do mundo natural e social (necessariamente, portanto, da economia e da história), bem com para as aporias que perpassam os textos de, por exemplo, Michel Foucault.
De um lado, penso que a constatação que Deleuze faz em relação à falta de uma (atenção à palavra) teoria (2) do dinheiro tem sentido. Não é segredo para ninguém que a análise do capital elaborada por Marx está definitivamente ligada à sociedade de seu tempo e aos paradigmas científicos do século XIX. E ao dizer isso, tenho em mente que, primeiro, trata-se aqui da simplíssima constatação de que, se o materialismo histórico de Marx tem validade como método, ele dever capaz de pensar a si mesmo enquanto uma construção humana historicizável. Logo advém a pergunta: o que mudou no capitalismo nos últimos cento e cinqüenta anos? Somente o fato de que o capital hoje já dá sinais claros de que ele independe, em larga medida, dos estados nacionais – na verdade, ele os reformata – já me parece motivo suficiente para um deslocamento teórico e prático das ações da esquerda. Isto, sem se considerar que o capitalismo atualmente pode produzir uma lucratividade impressionante sem, no entanto, realizar inversões produtivas – penso aqui no capital financeiro.
Isso já seria suficiente para que a esquerda abandonasse o paradigma segundo o qual tomar o estado equivale à revolução, bem como reposicionasse a ação política e as análises da economia não necessariamente sobre o problema do trabalho, mas sim sobre o problema da produção enquanto fator principal de preocupação analítica. O que é produzir hoje, não só em termos de mercadorias, mas mesmo em termos de possibilidades de vida futura? E aqui há um dado preocupante, pois não conheço, até o momento, algum movimento social, sindicato, professor ou estudante universitário, ou outro sujeito qualquer que esteja pensando não em termos de “melhorias” de produção, mas em termos de produzir de um outro jeito, inventar uma produção – no âmbito tecnológico, humano, administrativo – qualitativamente melhor do que o que temos.
Embora exista hoje uma pluralidade de discursos na esquerda, me parecem que existem duas tendências principais que, ao menos no Brasil (algum outro leitor poderia dizer como tudo isso ocorre em outros países), ditam os rumos do pensamento e das ações: há uma tendência a delirar com o bom e velho desenvolvimentismo; de outro lado, há um estranho “conservacionismo das identidades”: como continuar sendo “quilombola”, “índio”, “negro”, “branco”, “homem”, “mulher”, e assim por diante, mas sem algo que articule essas duas diferenças – principalmente no que diz respeito a formas de integração produtivas, econômicas inclusive. Não faço aqui oposição a nenhuma minoria, pelo contrário, tomo isso como preocupação mesmo com a continuidade da existência de uma pluralidade étnica.
O que eu quero dizer é que sobra antropologia e falta economia, falto-nos pensar possibilidades de produtividade que seja eficazes, construtivas, que não só se oponham a um pragmatismo acrítico. Falta-nos esforço teórico, administrativo, estatístico que seja capaz de articular problemas muito sérios, principalmente: como produzir sem esmagar as formas de vida minoritárias? Ao mesmo tempo, tudo indica que essas formas de vida social minoritárias têm poucas chances de sobreviver se forem mantidas em estágios de vida econômica marginais, deslocados da totalidade econômica. O problema está posto, e nesse sentido há, de fato, uma precariedade nos estudos teóricos que solucionem esse problema.
Além disso, há ainda um outro ponto importante que creio ser necessário pensar: a falta de uma grande síntese analítica e histórica da economia, da política, enfim, da lógica do capitalismo e de sua história recente é um fator que contribui para a gigantesca falta de coesão e de fraqueza das lutas de esquerda atuais. Falta-nos não um sentido teleológico para a história (e nem se deve criar um), mas é preciso pensar o sentido transversal que atravessa essas lutas tão diferentes travadas contra a lógica do capital. Claro, sempre há a aposta em um imanentismo das lutas sociais, e sempre há a possibilidade de surgimento de um pensamento que que, a partir do diagnóstico de situações postas possa produzir algum caminho a ser trilhado (3). Mas insisto que os séculos XIX e XX ainda não tiveram o seu Fernand Braudel, e o século XXI, penso, vai demorar um pouco para engendrar o seu Capital.
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NOTAS
1) DELEUZE, Gilles. “Sobre a filosofia”. Entrevista concedida a François Ewald e a Raymond Bellour. In. Conversações (1972-199). Trad. Peter Pal Pelbart. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992, pgs. 190-191.
2) Poderíamos ampliar isso para as relações de produção em geral hoje?
3) Me pergunto se a obra – não a ação política – de Mangabeira Unger não tem despertado interesse exatamente por tentar abrir possibilidades de solução para o problema: a partir de uma situação totalmente atual, produzir alternativas macro-econômicas que possam ser implementadas por países que não desejam se alinhar com o receituário neo-liberal.
Comentário do Celso:
Texto interessante, concordo plenamente que há um déficit econômico em todo o pensamento pós-68. No fundo, parece que esses teóricos, vivendo no auge do keynesianismo, simplesmente não achavam que era um problema difícil organizar a economia. É como se dissessem, “certo, temos aqui um Estado de bem-estar, como ir daqui pra frente?”. Logo depois, entretanto, o keynesianismo entrou em crise e foi desmantelado por Tatcher e cia. Não há melhor retrato disso do que o PT, partido com forte herança 1968, e, até outro dia, muito rudimentar economicamente, uma colagem de desenvolvimentismo, mezzo-marxismo e as concessões ao neoliberalismo politicamente necessária (estou entre os que acham que não aplicar essa receita, optando por uma solução mais ortodoxa, foi uma idéia excelente).
Comento mais quando sair a segunda parte do texto (e vou linkar lá no Na Prática).
09/5/07 @ 06:49:22 PM
27/Novembro/2007
O Caderno de Notas mudou de endereço. Antes situado em www.renatogimenes.bravejournal.com, ele agora veio para o wordpress. Minha página pessoal continuará em seu endereço atual, www.renatogimenes.bravehost.com, mas passará por algumas mudanças ao longo do mês de Dezembro.
O Bravejournal é um excelente serviço de hopedagem de páginas e de blogs. No entanto, dois motivos foram importantes para a migraçao: o fato de que o WordPress é completamente produzido com software livre, e as facilidades de produção de tags, de maior controle das informações, de divulgação, e melhores recursos multimídia.
Ao longo do mês de Dezembro, reproduzirei os posts mais importantes do antigo Caderno de Notas. Nesse meio tempo, finalizarei o layout do novo espaço.
Abraços, Renato!!!
QUANDO VOCÊ TIVER SUA EDITORA…
(Publicado originalmente em 28/08/2006)
Preparei este post especialmente para meu amigo Celso, do glorioso Na Prática a Teoria é Outra. Espero que isso inicie um bom debate sobre o tema…
Em primeiro lugar, quando vc decidir construir sua editora, me avise. No momento coordeno uma editora universitária e, quem saiba, eu possa ajudar em algo.
Espero que você esteja se deliciando com seu livro novo do Tolstói. De fato, serão 1.000 páginas sensacionais. No entanto, preciso dizer que vc errou ao tomar um efeito (e apenas um) como causa para a questão: por que os livros são tão caros no Brasil?
De fato, as tiragens pequenas atrapalham. Uma tiragem de 500 exemplares, hoje, de um projeto com razoável qualidade gráfica, capa com até 4 cores, miolo de livro inteiramente em preto e branco, sem ilustrações, apresenta um preço de capa médio entre R$ 18.00 a R$ 25,00 reais. Atenção, este é o preço de capa. Se o livro for composto em policromia, pode subir esse preço para algo em torno de R$ 28,00 a R$ 35,00 – no mínimo. No entanto, se um livro em policromia, em parte tiver uma edição de, digamos, 5.000 exemplares, o preço, em média, pode cair para algo em torno de R$18,00.
Para que isso ocorra, meu caro, alguns fatores precisam ser considerados: em que lugar se situa a gráfica que executará os serviços de impressão? São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Belém? Há uma boa variação de preços do papel para cada um desses lugares. Se a gráfica fica próxima da Report, em Suzano (SP), por exemplo, o custo do papel já cai bastante. Já na região Norte do Brasil, por mais que você consiga papel por um bom preço, os custos com transporte encarecem o produto. Com a chegada de grandes transportadoras aqui, esses preços têm melhorado, mas estamos falando ainda de um impacto de, mais ou menos, 10% nos custos totais de produção do livro, uma vez que o gasto da gráfica com o papel é repassado para os editores, que os embute no cálculo do orçamento do livro.
Tinta… As de melhor qualidade não são feitas no Brasil. Claro, sempre se pode fazer boas impressões em impressoras laser, mas o tonner dessas impressoras não fornece a melhor definição para livros com ilustrações. Além disso, não se pode fazer livros em impressão laser em “modo econômico”, portanto prepare o seu bolso para uma boa compra de tonners… A verdade é que impressões com laser servem, na maioria das vezes, apenas para gerarem as “bonecas” dos livros para os autores realizarem a revisão das provas.
O método de impressão mais usado ainda hoje é o de off-set. Um original é preparado em um tipo de papel chamado papel-filme, que funciona como uma espécie de negativo do livro (fotolito). Com um bom trabalho em off-set, a qualidade da impressão, em preto e branco ou policromia, quase sempre é bastante satisfatória. Isso, caso a gráfica tenha uma boa máquina, um bom acordo com seu fornecedor de tinta, funcionários com bons conhecimentos técnicos, e o serviço de preparação dos originais na editora tenha sido feito com competência e cuidado. Se você desejar comprar uma máquina off-set usada, preto e branco, pagará algo entre R$ 30.000,00 a R$ 345.000,00, com um pouco de sorte. Se for uma off-set colorida, digital, que lhe garanta independência para realização de seus projetos e ainda uma boa receita, vc deve preparar algo em torno de R$ 315.000,00 – isto para uma máquina usada.
Ok, tudo isso, mais o lucro do crazy people todo é computado no custo final do livro. Lembro-lhe que os salários dos gráficos, em geral são altos, assim como o dos designers que projetam os livros e suas capas (o piso salarial de um gráfico é de R$ 1.600,00 mensais, divididos em pagamentos semanais). Ah sim, se você não quiser ter problemas com a indústria dos softwares, compre os programas aplicativos e o sistema operacional em lojas autorizadas, não piratas. Você sabe o custo disso. Existem poucas, mas boas, alternativas em software livre para a área de editoração mas, dependendo do projeto, você necessitará de programas proprietários. Caso vc queira realmente fazer algo de excelente qualidade, e contar com muitos recursos de editoração, terá que utilizar computadores Apple. Vc já me entendeu, né?
Agora: mesmo considerando que máquinas off-set, designers, seviços gráficos podem ser terceirizados, que o preço dos papéis e das tintas estejam em um bom momento (já que esse mercado é dolarizado)… que você mesmo faça seus livros em seu computador, com um bom conhecimento de editoração, que não seja necessário pagar um revisor ortográfico, semântico e estilístico para fazer correções dos livros, mesmo que o seu livro não precise de nenhuma autorização para uso de dados, marcas, fotos, nem pague direitos autorais pelo uso de outros materiais, mesmo que vc esteja em excelente situação financeira, chamo a sua atenção para algo triste mas verdadeiro: uma hipotética edição brasileria da obra de Tolstói, de mil páginas, com preço de 12 reais, com tiragem grande o suficiente para cobrir o território nacional e baratear seu custo, infelizmente encalharia por falta de leitores.
Desculpe mas é isso mesmo – a edição encalharia por falta de leitores. A Câmara Brasileira do Livro avalia que a quantidade média de livros lidos no Brasil é de 1.8 livros por habitante, para ser bem exato (os dados são de 2005). A maior parte dos ganhos das gráficas no Brasil não provêm de livros, mas da impressão de material publicitário obtido a partir de acordos com grandes colégios ou indústrias, de “padrinhos” no setor público e, em anos de eleição, de material de campanha política. A maioria dos autores – exceção de alguns mestres do best-seller – não sobrevivem da produção de livros, nem dos contratos com as editoras, nem mesmo dos direitos autorais (conte aí a pirataria). Quase todos os autores tem um emprego (ou mais de um) que lhes permitem tanto o sustento quanto um investimento básico entre R$ 2.500,00 (para uma tiragem de edição de autor, co papel simples e capa na maioria das vezes tosca) a R$ 8.000,00 (o mínimo para uma edição entre 500 a 1000 exemplares, dependendo do tipo de livro, projeto gráfico e custos de produção e distribuição).
Os livros não são caros somente porque as tiragens são baixas… As tiragens são baixas porque o processo todo de composição do livro é caro, principalmente quando não há leitores para comprá-los-los!!! A quantidade de livros técnicos (inclua aí os acadêmicos) e de literatura erudita são hoje, no Brasil, necessariamente pequenas, com média de 500 a 1000 exemplares (exceções notáveis como a Companhia das Letras, por exemplo, ou a Record, que lança jovens romancistas, realizam tiragens de 3.000 exemplares por edição, em média). Em um país que dá sinais claros de que não está muito interessado em fomentar sua cultura erudita, a não ser que os artistas se mostrem dóceis ao projeto governamental, o que as editoras pequenas e/ou universitárias fazem é buscar um nicho de mercado específico, para que possam produzir, ao menos, cobrindo seus custos.
Penso que qualquer pessoa que REALMENTE deseje levar a sério seu sonho de abrir uma editora considere, desde já, realizar uma boa pesquisa de mercado que identifique quem é o seu potencial leitor, para, com o tempo, ajudar a formar mais leitores ou, no mínimo, alargar o seu horizonte de leitores. De resto, o principal problema que afeta a indústria do livro é o mesmo que afeta outras áreas da economia: péssima educação básica…
Os Cruzados
(publicado em 07/01/2006)
Começamos bem o ano de 2006. O History Channel programou para os dias 01 e 02 de janeiro, a reprise da mini-série Os Cruzados. Vale conferir horários alternativos para assistir a série esse mês.
Trata-se de um belo trabalho produzido em conjunto pelo próprio History Channel, RAI-Kirsch e Lux Studios. Rodada no Marrocos, a mini-série conta com atores italianos, sérvios, bósnios e africanos. Para todos aqueles que acompanharam os horrores da guerra na ex-Iugoslávia, ou que estão preocupados com os radicalismos religiosos, esta conjunção de atores de diferentes nacionalidades e orientações religiosas já é, em si, significativa: europeus, eslavos e africanos reunem-se para encenar um dos momentos mais sombrios da história, marcado por fanatismo religioso, ambições políticas pessoais, etnocentrismo e muita, muita incompreensão entre as partes envolvidas no confronto.
O enredo do Os Cruzados desenvolve-se em torno de três personagens principais, todos eles habitantes de um feudo no sul da Itália. O primeiro é Richard, jovem nobre que perde os direitos sobre o seu feudo de maneira cruel: ao tentar defender seu pai em uma emboscada, ele é obrigado a assassinar o seu próprio primo. Com as mãos sujas com o sangue de seus familiares, Richard é desonrado diante de seus comandados. Desgostoso, ele resolve não mais lutar por poder ou vingança, mas pela Fé.
O segundo é Andrew, jovem pastor encantado pelo aparente heroísmo da causa religiosa cristã. Movido por esse ideal, Andrew se junta ao exército cruzado, aperfeiçoando-se em técnicas de combate.
Por fim, temos Peter, talvez o mais interessante dos três rapazes e, com certeza, o que carrega a situação mais complexa de toda a série. Peter não possui origem cristã, mas sim, muçulmana. Seu verdadeiro pai é um comandante muçulmano cuja identidade é mantida em suspenso durante a primeira parte da mini-série. Ao atacar o feudo, ele poupa a vida de seus habitantes ao presenciar, em pleno conflito, o parto de uma menina (Maria), realizado pelo mestre de fundição do lugar, Arésio. Comovido, o comandante pede a Arésio que ele observe o estado de saúde de sua mulher, doente de varíola, e de seu filho recém-nascido. Diante da morte iminente da esposa, o comandante muçulmano entrega o menino aos cuidados de Arésio, e se retira com seu exército.
Peter – como é batizado o menino – carrega consigo esse sentido inicial: seu nascimento foi motivo para uma paz entre duas religiões; ele mesmo é portador de conhecimentos de diferentes tradições culturais que se fecundam e se encontram em seu processo educacional: Arésio ensina a leitura a Peter, assim como os segredos da fabricação de perfumes, a matemática, os poemas judaicos, os livros de fisiologia humana,a fundição de metais, enfim, toda uma gama de saberes aprendidas no contato com as tradições cristãs, judaicas e muçulmanas.
Entretanto, essa origem multicultural de Peter é alvo constante de preconceitos por parte de sua comunidade: taxado de “bastardo” e “sarraceno”, Peter acaba por ver suas expectativas pessoais frustradas pela morte de seu pai e pela impossibilidade de se casar com a mulher que ama, Maria. Dessa forma, a condição de Peter é também uma alegoria do ressentimento entre as culturas e religiões monoteístas, das oportunidades de convivência pacífica perdidas, do potencial de destruição mobilizados pela incompreensão entre cristãos e muçulmanos.
Esses três personagens encontram os seus destino nos campos de batalha das Cruzadas. E, ao mostrar toda a preparação militar dos cruzados para o combate, a mini-série presta um grande serviço ao público ao desmontar a idéia de que havia, na Idade Média, uma Europa homogênea e unida, comandada por um exército formado por nobres distintos. Para começar, o grosso do exército cruzado é constituído por camponeses, homens simples vindos de aldeias de diferentes partes da Europa: italianos, germânicos, normandos. O instrutor militar dos cruzados é um viking (!) de nome Olaf Gustafson, um assassino para quem a guerra é trata como um negócio, sem distinção de regras ou inimigos.
O desenrolar dos acontecimentos também revela a multiplicidade de interesses envolvidos nas cruzadas: fé na religião, sem dúvida, mas principalmente nas palavras das autoridades eclesiásticas e na propaganda efetuada pela igreja católica, que prometia leite, mel, prata e salvação para aqueles que participassem dos combates; interesse dos senhores feudais também, uma vez que enviar desafetos para as cruzadas era uma forma eficiente de eliminá-los, ou ainda, para que rivais pudessem usurpar o feudo de senhores ausentes seus domínios. Nem todos foram às cruzadas por fé, uma vez que muitos tomaram parte no exército cristão por falta de opção de vida em suas aldeias, ou em busca de novas perspectivas de vida proporcionadas pelos combates – pilhagem, comércio, salvação da alma, proteção de autoridades que comandavam o exército cristão.
Os momentos mais fortes de Os Cruzados talvez sejam aqueles nos quais os soldados são confrontados com o horror das batalhas que despedaçam seus corpos e suas ilusões, expondo a fragilidade de suas crenças religiosas e a lógica impiedosa que vigora em situações de guerra. Não me reportarei a essas situações aqui, pois assisti-las é, sem dúvida, mais proveitoso. Tanto quanto as encenações dos costumes de época que nos mostram uma Europa sem identidade definida, o intercâmbio cultural entre judeus, cristãos e muçulmanos, a estratificação da sociedade feudal, a riqueza da cultura popular medieval, mista de tradições pagãs assimiladas ao Cristianismo, interessam os paralelos possíveis entre presente e passado. Esses homens e mulheres tão diferentes que seguiram Robert Court-Heusse, Estevão de Blois, Balduíno, Urbano II, entre outros, cruzando o Mar Adriático desde 1097 para encontrarem seus destinos, acreditaram piamente na miragem religiosa que lhes foi ofertada pelos seus superiores: foram mediados pelos Papas, seus reis e príncipes. Acreditaram que os “sarracenos” eram uma legião homogênea de anticristãos e somente após provarem uma mistura de sangue, erros e livros que, em parte, esse etnocentrismo foi atenuado. A guerra revelou a essas pessoas a verdade das diferenças de costumes, deuses e culturas da pior forma possível.
Os Cruzados encenam essas histórias de forma que se abre, para o telespectador, uma janela fictícia para um passado sangrento, no qual a política eclesiástica mobilizou fé cega, desesperanças, ganância, fanatismo, informações enviesadas e imprecisas, comandadas pela propaganda papal.
É preciso pensar sobre isso tudo. Não temos uma “Cruzada” acontecendo hoje e, creio, nem um “Choque de Civilizações” como quer Samuel Huntigton. Temos o que parece ser uma guerra civil árabe, protagonizada por uma série de “filhotes” da Guerra Fria, e que agora é travada em todo o planeta. No entanto o termo “Cruzada contra o terrorismo” foi usado por George Bush às televisões do mundo, um dia após o ataque ao World Trade Center em 11/09/2001. É com o vocabulário da fé que Osama Bin Laden arregimenta jovens pobres e desesperançados na África, para destruírem os “infiéis” norte-americanos, segundo uma caricatura de mau-gosto de Alah e das palavras do profeta Muhamed. Trata-se de um flagrante abuso da memória das Cruzadas, reivindicada por pessoas que, tendo o mundo, não conseguem sair dos limites de suas aldeias. A história das Cruzadas, das trocas e ressentimentos entre as grandes tradições religiosas monoteístas é, nesse momento, mais do que bem-vinda: é necessária.
Atentados em Londres: porque a esquerda não pode apoiar o terror, a Al-Quaeda e os NeoCons.
(Publicado em 12/07/2005)
Os sites Tom Paine, dos liberals americanos (a esquerda dos EUA) e do Fórum Social Mundial estamparam ontem um interessante artigo de Patrick Doherty sobre os atentados lançados contra Londres.
Doherty é mestre em estudos de segurança em relações internacionais pela Fletcher School e treinou, nos últimos dez anos, oficiais da Otan para operações humanitárias. Também é fundador da Programa para segurança humana da Fletcher School of Law and diplomacy – Tufts University, Medford, Massachussetts.
Creio que o ponto de vista apresentado pelo artigo é bem interessante: o impacto causado pelos lastimáveis atentados a Londres não deve ser usado como mais um motivo para dar um voto de confiança a Bush. Deve, ao contrário, servir para pensarmos uma alternativa ao impasse criado pelas ações do governo republicano e dos terroristas, a saber: quanto mais atentados, mais medo; quanto mais medo, mais munição para ações militares e para a ideologia de “segurança nacional” por parte dos Estados Unidos; na medida em que essas ações se reforçam, ficamos sem entender coisas importantes:
- A ” guerra” da Al-Qaeda não é contra os Estados Unidos, mas contra os governos da Arábia Saudita e de Israel. Os ataques aos EUA são ataques aos “patrocinadores” desses governos, vistos como aliados ocidentais de sauditas e israelenses.
- A Al-Qaeda não tem nenhum interesse em resolver quaisquer dos problemas sociais em sua área de atuação. Ela não aposta no crescimento econômico da África, nem em uma igualdade social no Oriente Médio, pois é justamente de países destruídos e de populações miseráveis que Bin Laden pode recrutar seus homens-bomba.
- No exato momento em que a reunião dos G8 vai enfocar justamente os temas “mudanças climáticas globais” e “pobreza” ocorrem os atentados em Londres. Lembrando que a reunião está acontecendo em Gleneagles (Escócia), os atentados em Londres vêm justamente desfocar a atenção sobre a importância da reunião dos G8, tentando desestabilizar saídas eficazes e agressivas para os problemas ambientais (que inclui o uso de combustíveis fósseis), bem como a resolução de problemas de pobreza global.
- Lamentavelmente os democratas fazem coro aos conservadores americanos, sem entender que o problema não é meramente o “ódio aos valores ocidentais”, mas o fato dos terroristas atacarem o ocidente porque vêm a possibilidade de resolução de problemas que, se forem resolvidos, enfraqueceriam coisas como a Al Qaeda.
Aqui estão os links para acessar o artigo em português e em inglês. Se puderem ler em inglês é bem melhor, pois há os links para outras matérias importantes para o contexto do artigo. Abraços a todos!
Here, there and everywhere…
(publicado em 22/06/2005)
Não somos somente nós, brasileiros, que estamos nesse clima de “o sonho acabou” por conta da corrupção envolvendo o PT e o governo Lula.
Esse clima de desalento e de perplexidade com os rumos e práticas dos partidos políticos também está presente – quem diria! – nos Estados Unidos.
Em artigo publicado na AlterNet (http://www.alternet.org/story/22256), Gary Hart, ex-senador do Partido Democrata e duas vezes pré-candidato a presidência dos EUA, formulou uma pergunta interessante sobre a situação da política norte-americana: Os partidos políticos acabaram?
Esta pergunta pode parecer surpreendente no caso americano, país com forte tradição eleitoral, política e partidária. No entanto, os argumentos e conclusões de Gary Hart merecem um exame. Mesmo porque, algo de seu seu ponto de vista pode oferecer alguns parâmetros de comparação para o desalento brasileiro.
Para Gary Hart, os eleitores americanos estão cada vez mais deixando a fidelidade partidária para constituírem um “3o. Partido”, o dos “independentes”, eleitores que não mais se sentem representados pelas legendas dos partidos Republicano e Democrata.
Esta debandada dos eleitores dos dois principais partidos oficiais tem como causa, segundo Gary Hart:
(1) a dependência cada vez menor que os candidatos a cargos eleitorais (especialmente os mais ambiciosos) têm em relação ao dinheiro dos dois partidos. Não é difícil, segundo Hart, fazer um escritório político, bancar a própria campanha arregimentando dinheiro, correligionários ligados aos seus interesses, apoios financeiros que não têm ligação com o bem comum, mas somente com questões particulares.
(2) as pessoas precisam cada vez menos dos partidos políticos para expressarem suas idéias. Isto porque a “revolução da informação” destruiu as antigas estruturas políticas de comunicação entre partidos e eleitores advindas do século XIX. Como milhões de pessoas nos Estados Unidos cada vez mais são produtores e consumidores de informação, elas podem, via internet,discutir exatamente o que desejam, o que julgam necessário, construindo assim múltiplas pequenas plataformas políticas, dispensando uma ampla plataforma partidária.
Ainda segundo Gary Hart a situação dos dois partidos políticos passa a ser cada vez mais complicada, pois ambos agora precisam lidar não com indivíduos orientados ideologica e doutrinariamente , mas com indivíduos “ecléticos”, com poucas convicções políticas. Em linhas gerais, é em torno desse público que os Republicanos e Democratas estão em busca atualmente.
Talvez a observação mais interessante do texto de Gary Hart seja seu diagnóstico da quebra de coalizaões ideológicas e eleitorais ocorridas no interior dos dois partidos. Do lado Democrata, não há mais a coalizão que unia liberais tradicionais, trabalhadores, minorias, mulheres, ambientalistas e internacionalistas. Com a ruptura dessa coalização, os Democratas ficaram sem uma “causa” com a qual os seus eleitores poderiam se identificar.
Já os Republicanos também não contam mais com sua antiga coalizão de eleitores tradicionais que se identificavam em torno de um programa: governo mínimo, equilíbrio do orçamento, liberdade econômica (“laissez faire”), liberdade individual, respeito à privacidade e o cuidado em evitar conflitos com outros países (“foreign entanglement”) são princípios que não existem mais no partido Republicano, sendo substituídos pelo seu oposto: governo de grande tamanho, déficit público, guerras preventivas, neo-imperialismo, fundamentalismo religioso e invasão de privacidade.
A superação desse estado de coisas, para o ex-senador Gary Hart, passa pela construção de um “novo paradigma político”. Mas essa proposta de um “novo paradigma” é exatamente a parte mais decepcionante de seu texto:
.. the paradigm will be based upon authentic and original American principles, it will also be enlightened informational, it will be participatory and decentralized, it will be empowering, and it will incorporate de ideals of the democtratic republic. Mos t of all it wll be politically transformational and ir will becom so by restoring our deepest beliefs, our sense of national honor, integrity, dignity, courage, and duty.
Eu não tenho absolutamente nada contra os valores acima, especialmente com a dignidade, mas o que há de “novo” nesse “paradigma”? Em minha opinião nem mesmo a retórica, que se aproxima mais da fala do Capitão América se ele votasse no Partido Democrata. O que parece demonstrar que os democratas continuam completamente perdidos nesse novo cenário descrito por Gary Hart.
Não obstante, há um ponto neste artigo que, se estiver correto, nos dá um diagnóstico importante da situação política e ideológica dos Republicanos: tudo o que eles deixaram de ser coincide exatamente com os princípios mais caros do que nós chamamos de Neo-Liberalismo. Por esse diagnóstico, o que se revela é que não estamos mais lidando com uma plataforma neo-liberal, mas com algo diferente do que a política americana (e talvez o resto do mundo) conheciam até o momento.
Minha leitura final do artigo não compartilha nada do otimismo nacionalista de Gary Hart. Para ele, esse Partido Republicano que está aí não durará muito no poder, pois não possui bases nem no republicanismo tradicional, nem no “mainstream” político do país. Entretanto, se o próprio autor argumenta que as bases políticas partidárias tradicionais dos EUA foram destruídas, por que razão (a) buscar os valores do “espírito americano” e das figuras dos “pais fundadores” do país? Por mais que o mito fundador de um país tenha força, desconfio que ele sirva hoje para consolar os Democratas e servir de alimento aos Republicanos em seu discurso messiânico de salvação da democracia e do mundo livre contra os inimigos externos. E (b) estaria o Partido Republicano tão fora assim da realidade?
Penso que a agressividade de Bush deve-se, em parte, porque ele age justamente sem ter mais nenhuma referência do passado americano, mesmo que idealizado, a lhe servir como censura. Ao contrário, Bush parece acreditar piamente que está em suas mãos a proteção do país e tudo o que ele representa contra os novos totalitarismo (criados, aliás, com a ajuda definitiva do governo americano durante a Guerra Fria). Ou seja: Hart está errado em sugerir que os Democratas são os guardiães do passado norte-americano, pois este papel já foi absorvido pelos Republicanos.
Bush parece ser muito mais atual do que imaginamos: optou por romper uma parceria de comando mundial com os europeus, construída ao longo das gestões de seu antecessor Bill Clinton, e tomou para si a hegemonia política global, deixando a Europa em segundo plano e às voltas com suas crises de identidade.
Resta agora saber como (e se) os EUA suportarão o seu crescente déficit público, e se suas empresas manterão a competitividade tecnológica e de qualidade com os europeus, que têm em sua economia uma chance de reequilibrar o comando mundial – caso eles se entendam. E nos resta lamentar que os Democratas, a sustentarem uma perspectiva ideológica parecida com a de Gary Hart, não tenham muito mais a oferecer ao mundo do que um aceno ao passado.
Por fim algo que nos diz respeito: também nós pasamos por um momento em que as identidades dos eleitores e dos partidos políticos estão esvanecendo-se. Entretanto o quadro não é de articulaçãomolecular de opiniões, nem de fragmentação das causas e plataformas políticas, mas da luta talvez suicida no interior da centro-esquerda. Nessa luta na qual as plataformas de centro-esquerda e as necessidades do país não convergem, restou a cada uma das facções social-democratas (PT e PSDB) tentar, da forma e pelo método que fossem possíveis compor as bases de seus governos.
Não é preciso ir muito longe para saber que isso significa aprimorar cada vez mais uma máquina de corrupção que existe no país desde o governo Sarney, pelo menos. O momento atual também exige de nós um “novo paradigma” de exercício e condução do governo mas, se o quisermos, vamos ter que olhar para a frente. Teremos que buscar uma esquerda com quadros técnicos e administrativos capacitados, e com políticos que procurem recompor a agenda dos problemas sociais brasileiros em uma pauta que soterre de vez tanto o populismo (à esquerda e à direita) quanto qualquer traço de autoritarismo da esquerda brasileira. Nosso passado também se esgotou – mas ao menos isso podemos comemorar.
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