Lendo o Liberal, domingo à tarde…

Ler O Liberal é um exercício excepcional para manter a concentração do leitor, ainda mais no domingo. à trade, pós feijoada! Os olhos percorrem os títulos das colunas, das matérias, numa garimpagem de textos que fujam do tom morno, da mesmice e da mediocridade. Aparecem, claro, coisas boas, mas quase todos os seus cadernos (exceto os classificados…) podem ser resumidos a apenas uma espécie de denominador comum: são todos colunas sociais. Nada mais do que longas colunas sociais, com a profundidade de análise de uma coluna social…

O Liberal é superlativo tanto no tamanho de seu parque gráfico, quanto em sua tiragem e sua  superficialidade. O caderno que, em tese, cumpriria a função de ser a seção de cultura do jornal, o “Magazine”, chega a ser constrangedor se equiparado a jornais como Folha de São Paulo ou O Globo. Praticamente nada de interessante sobre lançamentos de livros, uma coluna muito fraca sobre cinema, a programação das TVs abertas, o destaque sobre os principais shows da cidade, mas tudo em um tom tão cheio de clichês, tão banal, que chega a dar sono.

(Me pergunto se o sono é efeito da feijoada, e se não estou sendo ranzinza e pedante. Leio a matéria de capa do “Magazine”, sobre a apresentação de Ivete Sangalo aqui em Belém:

É hora de reforçar as estruturas, o fôlego, o pique, porque o furacão baiano que sacode o Brasil inteiro quando passa invade Belém mais uma vez, sem pedir licença – até porque não precisa, o público quer mais é que ela venha pra abalar, sacudir, balançar, como ela mesma canta. Ivete Sangalo arrebata hoje o Cidade Folia em mais um Cerveja & Cia Fest, a partir das 17h, repetindo o show que fez nessa mesma época no ano passado, em 26 de agosto, para ser mais exata. (…)

Ivete é a confirmação da máxima que diz que ‘baiano não nasce, estréia’. Nascida em Juazeiro, interior baiano, em 27 de maio de 1972, provavelmente nem ela sonhou que chegaria onde chegou – prova disso é que logo na primeira música de seu mais recente trabalho, ‘Ao Vivo no Maracanã’, ela não agüenta e grita, entre um verso e outro: ‘eu não tô acreditando nisso!’. (…)

Não, definitivamente, não é a feijoada!)

Acho até estranho mas… pesquisando os antigos jornais aqui de Belém, tanto no Arquivo Público do Estado quanto na Fundação Tancredo Neves, pode-se notar certas similitudes entre estes jornais antigos e os atuais: a divisão política escancarada e agressiva – aqui, entre o jornal pró-PMDB (leia-se: pró-Jader Barbalho), no caso, o Diário do Pará, e o grupo anti-Jáder, um pouco mais identificado ao PSDB, representado por O Liberal. De resto, classificados gigantescos, um monte de matérias pagas por empresas que realizam seus próprios panegíricos, quase nenhuma análise e um grande desfile de personalidades. Uma ou outra matéria de cunho sensacionalista, notícias policiais e esportivas, em geral sobre o Remo e o Payssandu, e mais um monte de matérias pagas de outras agências de notícias e outros jornais. As mesmíssimas características que se encontravam nos jornais da década de 1930. Claro, a diagramação mudou muito, a linguagem mudou muito do ponto de vista da construção das matérias, mas a quantidade de análises interessantes, principalmente na área de cultura, é muito pequena.

Duas exceções honrosas no Liberal de hoje: a primeira é uma matéria interessante sobre uma homenagem ao mestre Verequete, mais importante figura viva do Carimbó paraense (e quem não ouviu, ouça carimbó, que é ótimo!!!)

O segundo é o caderno “Poder”, que conseguiu levantar um debate interessante sobre a violência no processo eleitoral no interior do estado do Pará, bem como sobre a necessidade ou não do uso de efetivos militares para garantir eleições isentas nos municípios do interior. Isto, além das entrevistas realizadas com os candidatos à prefeitura de Belém.

Esses foram os grandes assuntos em meio à aridez do jornal, ainda mais difícil de aguentar depois de uma bela feijoada…

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Mas foi realmente assustadora a reportagem sobre a violência nas eleições no interior do estado. Comentarei esta situação em postagem próxima.


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